domingo, 17 de julho de 2005

Morangos mofados ou Coito interrompido.

Estes poderiam ser os títulos deste post. (mas não Os 5 estágios da dor da morte. Não, ainda.)

Cecília tinha pressa. Ocupada em sua mesa confusa de trabalho lotada de papéis, sempre minutos antes do almoço, fazia questão de baixar rapidamente seus e-mails. - Saco de outlook que dá erro - pensava em voz alta enquanto clicava incessantemente como se uma foca histérica apertasse o botão de um elevador velho.
Mensagens de erro, após, apagava rapidamente os spams e toda sorte de lixo eletrônico que brotava às pencas na caixa de entrada. Não havia tempo a perder com aquilo, afinal, era mandatório em sua agenda ligar para o João Antonio em seguida ao almoço ralo.

Talvez nem estivessem tão apaixonados mas, certamente, ele ocupava algum lugar em sua vida. Um lugar difuso, é verdade, que ela gostava de intitular como namoro, afinal, tinha muita pressa: já passara da idade de indefinições. - Coisas lentas em minha vida? Basta aquela porcaria de computador velho. Era a nota mental diária.

Semana após outra, ao fim de cada encontro, vigoroso como rosas de plástico, sem elaborar muito - não havia tempo (ou disposição?) para isso, não, não - ficava cada vez mais bêbada daquele lugar que João Antonio tacitamente ocupara em sua vida: o namorado, orgulhava-se.

Um dia João Antonio, cada vez mais alheio à posição que lhe era conferida, rompeu. Rompeu educadamente. Alegou aquele script default que todas pessoas educadas falam em tom grave quando não se sentem felizes, ou quando não se sentem completas, ou quando só querem putaria, ou... ou... enfim, tantas possibilidades quanto as que caberiam a palavra genérico.

Não era a primeira vez que Cecília ouvia aquilo. De repente o som daquelas justificativas se esvaiam em uma ausência mental. Ligeiramente atordoada só pensava - Burra, burra.. Pensava também sobre quem iria ocupar aquele lugar, (por mais que a sua analista já tivesse tentado de uma vez por todas fazê-la entender que pessoas não ocupam lugares).

A história não tem fim.
Se preferir, pense que João Antonio e Cecilia se despediram com um abraço murcho, que foram cada um para o seu lado e que tiveram uma boa vida.
Ou pense o que quiser. O fim é o que menos importa.






2 comentários:

Macabéa de Firma disse...

miserável esse post (isso é um elogio), deu até fome

matheus disse...

isto é o que menos importa na história, mas é o que mais incomoda na nossa vida.