sexta-feira, 30 de setembro de 2005

Ainda em tempo, estou pra ver coisa mais sem propósitos e, no mínimo, anacrônica que o Festival Cultura.
As poucas apresentações que assisti me deram a nítidia sensação de algo pasteurizado - quer fazer mpb contemporânea meu bem? Eis a receita:
Coloque a sua sandália (ou bolsinha de crochê caso você seja menina) e aposte na mistura de ritmos brasileiros.
Isso. Muita mistura com ranço de Vila Madalena no melhor estilo de Rípi que deu certo na vida.

E teve vaia na final.
Embora ache que a dupla Luis Tatit e Dante Ozetti peca pelo intelectualismo pretensioso semi-ripóide, sim, eu concordo com as vaias: eles mereciam o primeiro lugar e não a medalha de prata.
Até mesmo porque Contabilidade, a grande ganhadora, é simplesmente um vômito.

Algo a declarar?

terça-feira, 27 de setembro de 2005

Dizem que pareço meu pai

Por esses dias estive lendo 5 Lições.
O que mais chama atenção, ao menos naquela fase pré-psicanalítica do Freud, é a clareza do texto - não há elocubrações mirabolantes: a complicação está em quem escreve sobre Freud, não nele próprio.

Mas indo ao que realmente interessa - a vidinha infantil às voltas com a imagem dos nossos pais - lembro-me difusamente da imagem de meu pai. É verdade que o difuso propositalmente é, antes de tudo, uma grande autoproteção.
Naquela imagem difusa, construída antes dele de sair de casa quando eu tinha 3 anos, surgia um homem fraco, embriagado, dominado - e assim, o vejo até hoje, ainda que eu tente encontrar ali algo de positivo.

Mas não, este não é um post lacrimogêneo nem tampouco auto-indulgente ou qualquer outra coisa parecida. Nosso relacionamento hoje é cordial, distante e sem grandes emoções aparentes, talvez algo como apreciar fotos p&b de cafés parisiences.

* *
Achei outro dia uma New School no tattoland que gostaria de fazer. Algo como a da foto mas fechando do ombro ao cotovelo e na cor azul.



É verdade que a minha ligação com tattoos, alargadores e whatever tem muito da contribuição do existir para O Outro (*) e de uma forte componente de ajuste de contas com um passado nerd - sim, eu preciso acertar as contas com aquela adolescência larval - mas eu preciso admitir, também, ao menos uma vez, que é uma tentativa de me livrar do corpo do meu pai.
Então recaio sobre o título deste post: Dizem que pareço ele. Eu, intimamente, também acho.
Tattoos ou outras modificações quaisquer dão contornos próprios ao meu corpo na medida que me diferenciam do meu pai.

Só não sei o que é mais doloroso, perceber que a embalagem pode ser moderadamente modificada, o conteúdo nem tanto ou perceber que sempre estive equivocado a respeito dele.

Aposto na segunda hipótese.
__
* Lacan, quando ele fala do Grande Outro.

sábado, 24 de setembro de 2005

Na praça Roosevelt de madrugada a tia de cinta-liga perguntou:

- É biu ou é homem, hein?
- Biuuu.
- Linda, smuack!

quinta-feira, 15 de setembro de 2005

A bossa e o envelope

Recentemente duas pessoas que não se conheciam declararam que acreditavam ser uma qualidade minha o equilíbrio.
Gentilezas a parte, me segurei para não rir.
É verdade que eu tenho me empenhado bastante para que a minha vidinha ganhe os tons da Astrud.

Conta Barus-Michel que via de regra não conhecemos o outro, mas sim uma uma imago - uma espécie de imagem-envelope que nos envolve e é construída continuamente ao longo da vida e que é modificada na medida que somos submetidos a avaliação dos pares.
A grande sacada é que como mudamos o tempo todo, seja de trabalho, de casa, de círculo de amigos e, até mesmo, de ideais, este envelope é mutante.
É. Eu diria que se me têm como uma pessoa equilibrada, é porque assim me vêem e assim ajudaram construir resultando numa mutação improvável.

Digo improvável porque este envelope-bossa que me reveste esconde um hard techno.
Sou combativo, vermelho e ligeiramente gouche.
Diria ainda inquieto, alcóolotra potencial, devasso e esquerdo.

Mas ninguém precisa saber (muito) sobre isto, porque o que importa mesmo não é ser, mas parecer equilibrado.

O que importa é como você vê o envelope que me reveste e que reflete coisas sobre o que você mesmo é.

quarta-feira, 14 de setembro de 2005

Ultimamente estou revendo os critérios do que considero um bom marido.
Além de usar barba, ser mais alto do que eu, ser judeu (ou aparentado) e ter cabelo castanho escuro ou preto (sim, prefiro os inteligentes) - o moço também deve dominar as práticas caseiras de culinária e arrumação.
É.
Ontem a máquina de lavar inundou a kit. Ai, socorro.
Além disso, não consigo trocar lâmpadas subindo nem mesmo em cadeiras - daí os mais altos, compreende? - e, finalmente, não tenho a mínima idéia de como passar roupas.

Diga-se de passagem, passar roupas é uma tarefa extremamente complicada. Usa, no mínimo, umas 5 das .7 inteligências.
Certeza.

Depois dizem que o difícil é entender o Mol.
tsc.

Concordo com vc, dear.
Também me sinto sujo usando uma lanhouse.

Autocompletar devasso.

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

Acho que foi Drummond, não lembro, que disse que amar é mudar de casa a própria alma.
Tranquilamente digo que os acontecimentos dos últimos dias têm me levado a conjugar o verbo amar como um verbo intransitivo, como o do Mário de Andrade, num sentido absoluto onde as gradações
não têm vez - gosta-se ou não.

Não só a alma está de casa nova - o meu corpinho físico desde sábado passado habita o Edifício Copan.

Eu diria que a diferença básica entre o bairro e o centro é o ato de sair na rua: morando no centro, basta pôr os pés para fora do ap. Já é um evento.
No Copan o evento vai desde o encontro diário com os moradores-personagens durante a descida dos 29 andares até a passadinha pelos cafés da galeria no piso térreo.
Da vista da cúpula da Catedral da Sé aos barulinhos estranhos do edifício.
O evento está em toda a parte.

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

Kuenda, saiu o meu novo CEP.
Luzes. Luzes.

* *
No momento apenas duas certezas:
amanhã pego as chaves e esta noite eu não durmo.
A Sandra Sá teve, um dia, alguns momentos de rádios number one na década de 80 com o seu Joga fora no Lixo, lembram disso?
Quem ainda fala desta cidadã depois que aquele "de" foi metido no meio do nome?

Agora, ícone máximo da numerologia mal sucedia, mesmo, foi o Zé Pretinho. Jorge Ben fez coisas legais nesta vida. Sim, sim. Já Jorge Benjor, no máximo, o que conseguiu foi chamar o síndico.

É. Eu processaria a macaca que fez isso. Nem tanto pela Sandra, mas pelo Jorge. Certeza.

jorge ben - 1969 - barbarella

Post dedicado a baiana que só fala que vai subir a serra do mar.