terça-feira, 27 de setembro de 2005

Dizem que pareço meu pai

Por esses dias estive lendo 5 Lições.
O que mais chama atenção, ao menos naquela fase pré-psicanalítica do Freud, é a clareza do texto - não há elocubrações mirabolantes: a complicação está em quem escreve sobre Freud, não nele próprio.

Mas indo ao que realmente interessa - a vidinha infantil às voltas com a imagem dos nossos pais - lembro-me difusamente da imagem de meu pai. É verdade que o difuso propositalmente é, antes de tudo, uma grande autoproteção.
Naquela imagem difusa, construída antes dele de sair de casa quando eu tinha 3 anos, surgia um homem fraco, embriagado, dominado - e assim, o vejo até hoje, ainda que eu tente encontrar ali algo de positivo.

Mas não, este não é um post lacrimogêneo nem tampouco auto-indulgente ou qualquer outra coisa parecida. Nosso relacionamento hoje é cordial, distante e sem grandes emoções aparentes, talvez algo como apreciar fotos p&b de cafés parisiences.

* *
Achei outro dia uma New School no tattoland que gostaria de fazer. Algo como a da foto mas fechando do ombro ao cotovelo e na cor azul.



É verdade que a minha ligação com tattoos, alargadores e whatever tem muito da contribuição do existir para O Outro (*) e de uma forte componente de ajuste de contas com um passado nerd - sim, eu preciso acertar as contas com aquela adolescência larval - mas eu preciso admitir, também, ao menos uma vez, que é uma tentativa de me livrar do corpo do meu pai.
Então recaio sobre o título deste post: Dizem que pareço ele. Eu, intimamente, também acho.
Tattoos ou outras modificações quaisquer dão contornos próprios ao meu corpo na medida que me diferenciam do meu pai.

Só não sei o que é mais doloroso, perceber que a embalagem pode ser moderadamente modificada, o conteúdo nem tanto ou perceber que sempre estive equivocado a respeito dele.

Aposto na segunda hipótese.
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* Lacan, quando ele fala do Grande Outro.

5 comentários:

Ferdie disse...

Dizem que sou muito parecido com meu pai (já acharam que fotos dele eram minhas), e sempre tive problemas com ele. Não me importo com a aparência física. E pra falar a verdade, apesar de odiá-lo em *muitos* aspectos e não ter um convívio nada sadio com ele, sei que ele foi um vencedor, e eu sou obrigado a admitir.

Anônimo disse...

Fisicamente eu tb me pareço com meu pai - dizem, e acabei acreditando mais no que dizem do que no que vejo.

A verdade é que no que tange o comportamente interpessoal, eu realmente sou muito diferente dele. Ele é muito fechado, e olha que para eu achar isto, é realmente algo dificil de se conviver.

Agora, sobre tatuagens, faz pelo menos uns 5 anos que eu tenho uma vontade latente em fazer uma tatoo. Não de deseinhos, foguinhos, ou coisa assim. Mas uma frasezinha, com uns detalhes. Algo meio que codificado para que poucos entendam, e todos que vejam fiquem coma sensação de "como assim?" no rosto.

Obvio, nao vou revelar o que é, mas quem sabe nao tomo coragem, e deixo um certo alguém com essa cara? :P

Murilo

1.000ton disse...

Tua história é parecida com a minha, com um detalhe, meu pai nunca abandonou a família. Mas, embora presente, foi sempre absolutamente ausente. Hoje acho ótimo, pq me fez ser diferente dele, embora alguns defeitos fundamentais sejam muito parecidos, alguns até piores.
Não penso mais muito nesse assunto, que já foi uma assombração na minha vida. Nem na capa de austeridade autoritária que ele sempre envergou.
Hoje, sou um cara tranquilo e, pasme, descobri coisas muito interessantes sobre ele, como, por exemplo, que morre de medo de mim!?!

Anônimo disse...

kralho, marco, como vc consegue ser tão culto e ter tanto insight?

fã desse blog, e de vc, sempre.

fer

Jettany disse...


Também tinha esse problema que resolvi no inicio da minha adolescência com bodymod´s.

Hoje hormonizada, cabelos longos platinados, salto alto e cabeça erguida em roupas incriveis, não me pareço com meu pai e sou uma versão muito mais glamour de qualquer criatura que conheci pela vida.