terça-feira, 27 de dezembro de 2005

Gerador de desejos

Mundo vasto mundo. Chegou a hora de acertar as contas deste final de ano.
Não há escapatória, não é mesmo? Já que é assim, me dou ao menos ao luxo de escolher o porvir a remoer o que já passou.
Não. Não quero saber dos dez melhores, dos dez piores ou do que poderia ter sido mas não foi.
Sei apenas que doze meses são o suficiente para qualquer um entregar os pontos. Eis aí que mora o milagre da renovação, onde nasce uma nova vontade de recomeçar tudo com um outro número e uma nova esperança que daqui pra frente vai ser diferente.

Mesmo sabendo, mundo vasto mundo, que se eu fosse dava na mesma, insisto pensar no porvir.

Aí eu faria mesmo sem porque justamente é que aí mora .

Mundo vasto mundo, só preciso para por os meus planos em prática.

Somaria ainda porque, por Deus, também mereço.

Das três metamorfoses



Das três metamorfoses do espírito: como o espírito se transforma em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.
Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o espírito forte e sólido, imbuído de respeito.

(...)
O espírito transformado em besta de carga se sobrecarrega das coisas pesadas, por mais pesadas que sejam. Como o camelo, apenas carregado, corre em direção ao deserto, assim apressa o espírito para o seu deserto.

Na extrema solidão do deserto, ocorre a segunda metamorfose. O espírito se transforma em leão. Pretende conquistar a sua liberdade e ser o rei de seu próprio deserto.
Procura então seu último senhor. Quer ser seu inimigo e seu último Deus. Para sair vencedor, quer lutar com o grande dragão.

Qual é o grande dragão a que o espírito já não quer chamar senhor nem Deus?
"Tu deves", assim se chama o grande dragão.
Mas o espírito do leão diz: "Eu quero"


(...)
A criança é inocência, esquecimento, um recomeço, um brinquedo, uma roda que gira por si própria, movimento primeiro, uma santa afirmação.

(...)


Nietzsche, Das três metamorfoses in Assim Falava Zaratustra.


* * *
Esta é a minha retrospectiva pessoal do ano de 2005.
Até julho fui camelo, depois virei leão.
Hoje estou num limbo que anuncia a metamorfose deste leão.

Que em 2006, ou antes, venha a criança.

* * *
Arcano XXII: O Louco, em posição direita.

domingo, 25 de dezembro de 2005

Alone

Psiquicamente voltei a jogar Alone in The Dark.
Freud deve saber o porquê.

Pensando bem, Freud não: Jung.
O meu caso é de terapia Junguiana.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

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A hecatombe anual chegou, quase tão ruim quanto o dia dos namorados.

Ao natal e às reuniões familiares:
My ass.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

Fogo fátuo



A Fogueira [Medurat Hashevet]
(2004)

Em 1981 Rachel, viúva há um ano decide ir a encontros armados por uma amiga.
Por essas conhece Yossi, um motorista de ônibus já veterano desses encontros murchos e malfadados.
Ele conhece bem as pessoas ocasionais e sabe que Rachel é diferente.
Ou ao menos gostaria que ela fosse diferente.
Afinal, as pessoas ocasionais, assim como os apartamentos alugados e as cidades, foram feitas para serem abandonadas.

Após várias caronas no ônibus de Yossi, a sensação é de ternura misturada a coito interrompido. Algo substancialmente falta. Algo é abortado antes mesmo de ser concebido.

Não se contendo ele diz:
- Sei que está ficando comigo porque não encontrou outro melhor, mesmo assim, eu queria dizer que eu te amo. (*vide nota de rodapé)

Ela foge do olhar dele - foge na verdade dela mesma, porque somos o reflexo do olhar do outro. Sim, nós somos.
Desde pela porta dianteira do ônibus velho e pára.

Ele: O que você espera?
Ela: Não sei... já me disseram que eu precisava esperar a hora certa, como se fossem fogos, mas eu não sei...
Nunca me apaxonei de verdade.... Nunca...

Ele: Os fogos não existem. Só é capaz de ver a si mesma.
Você é egoísta.

* * *

(*) Esta é uma frase proibida. Nunca diga.
Na dúvida bata uma punheta bem demorada.
Passa.

domingo, 18 de dezembro de 2005

Metafórico

Aqui no 29o, enquanto o grito da vida me emudece, uma outra companhia se faz presente além do Caio:
Nietzsche.

Se eu pudesse materializá-lo diria a ele que valeu a espera de 28 anos para conhecê-lo.
Valeu, sim.

Em suas palavras:
É verdade: amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas estamos habituados a amar.
Há sempre algo de loucura no amor, mas também há sempre algo de razão na loucura.


in Assim falava Zaratustra.

Assim amo. Amor louco.
E mudo. Contido na razão da minha loucura solitária.
Mudo, afinal somos um coração solitário na medida em que defendemos causas em que só nós acreditamos.
Não é Nietzsche? Sempre assim.

Por essas os corações solitários e loucos se desencontram lá embaixo.

sábado, 17 de dezembro de 2005

in Transe

Gente, o que é o Susi in Transe ao meio dia?

No momento não estou em condições de elaborar nada além da seguinte frase:
- Catuaba nunca mais. Nunca mesmo.

Acho que vou ali vomitar.
Minha cabeça dói....

Preciso de um abraço.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

HELL HELL HELL



Então hoje tem The Boom Boom Chicks no Susi in Transe, ali debaixo do modorrento Elevado Costa e Silva, o Minhocão.
Adoro.

Se eu tivesse uma banda ela seria mais ou menos assim: crua, com meninas mau humoradas e rócão básico cheio de guitarras punk bêbadas.
Tudo com direito às dancinhas da baterista que toca só bumbo.

* * *
Na falta de uma companhia, levarei o meu corpinho lá. Certeza.
Com um pouco de sorte darei a ele, sexo e drogas também.
Ok... Sejamos realistas e pragmáticos: em meu atual estado vegetativo, sem sexo mesmo...
Quem sabe, algum teor álcoolico.

The Boom Boom Chicks - Queen Bee

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

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Mais uma do Caio.
Boa Caio.

"(...) Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa. A não ser o belo, que é de ver, não de mastigar, e por isso mesmo também uma forma de desconforto. No turvo seco de uma casa esvaziada da presença de um dragão, mesmo voltando a comer e a dormir normalmente, como fazem as pessoas banais, você não sabe mais se não seria preferível aquele pantanal de antes, cheio de possibilidades – que não aconteciam, mas que importa? – a esta secura de agora. Quando tudo, sem ele, é nada."

in Os Dragões Não Conhecem o Paraíso,
Caio Fernando Abreu.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

O limbo.

O mar de solidão da Torre.
Sem dúvidas a melhor noite. Mas o mar de solidão, aqui entendido como sentir-se subitamente invisível em plena multidão, fez com que eu preferisse ir embora. Abandono de missão. Água na batalha-naval. Over. Grito mudo sufocado. O ovo apunhalado.

Nestas ocasiões fico em dúvidas sobre onde geograficamente estaria localizado este mar de solidão.
Talvez num limbo, meio fora, meio dentro de mim.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

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Alguém me convida pra um café da manhã?
...

Alô?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2005

Fome - parte I

Por essas, do alto do 29o., Caio me acompanha.
Segue, em partes do tamanho correspondente a quanto meus dedos conseguirem digitar, algo que poderia ser uma versão masculina da Macabéa. Ah, essa miséria humana... Talvez seja melhor assim: um Caio homeopático - Dragões não conhecem o paraíso.

Bom divertimento,
ou não.

* * *


   Um aquário de águas sujas, a noite e a névoa da noite onde eles navegavam sem me ver, peixes cegos ignorantes de seu caminho inevitável em direção um ao outro e a mim. Pleno inverno gelado, agosto e madrugada na esquina da loja funerária, eles navegavam entre punks, neons, prostitutas e gemidos de sintetizador eletrônico - sons, algas, águas - soltos no espaço que separa o bar maldito das trevas do parque, na cidade que não é nem será mais a de um deles. Porque cidades, como as pessoas ocasionais e os apartamentos alugados, foram feitas para serem abandonadas [É isso aí. Caio!] - reflete, enquanto navega.

   Ele: esse homem de quase quarenta anos, começando a beber um pouco de mais, não muito, só o suficiente para acender a emoção cansada, e a perder cabelo do alto da cabeça, não muito, mas o suficiente para algumas piadas patéticas. Sobre esse espaço vazio de cabelos no alto da cabeça caem gotas de sereno, cristais e névoa, e por baixo dele acontecem certos pensamentoa altos na noite, algum álcool e muita solidão. Ele acende um cigarro molhado, ele ergue a gola do impermeável cinza até as orelhas. Nesse gesto, a mão que segura o cigarro roça áspera na barba de três dias. Ele suspira, então, gelado.

   Há muitas outras coisas que se poderia dizer sobre esse homem nesta noite turva, nesse bar onde agora entra, na cidade que um dia foi dele. mas parado aqui, no fundo do mesmo bar em que ele entra, sem passado, porque não têm passado os homens de quase quarenta anos que caminham sozinhos pelas madrugadas - todas essas coisas um tanto vagas, um tanto tolas, são tudo o que posso dizer sobre ele. Assim magro, molhado, meio curvo de magreza, frio e estranhamento. O estranhamento típico dos homens de quase quarenta anos vagando pelas noites de cidades que, por terem deixado de ser a deles, tornaram-se ainda mais desconhecidas que qualquer outra.

   O bar é igual a um longo corredor polonês. As paredes demarcadas - à direita de quem entra, mas à esquerda de onde contemplo - pelo balcão comprido e, do lado oposto, pela linha, estendida horizontal da porta de entrada até a juke-box do fundo onde estou e espio, ele se movimenta - magro, curvo, molhado - entre pessoas enevoadas. Vestido de escuro, massa negra, monstro vomitado pelas ondas noturnas na areia suja do bar. Entre essas pessoas, embora vestido de cinza, ele parece todo branco.

   O homem pede uma cerveja no balcão, depois se perde outra vez no meio das gentes. Alongando o pescoço, mal consigo acompanhar o topo da sua cabeça de homem alto, meio calvo, até que ele descubra a cadeira vazia na mesa onde está sentado aquele rapaz. E daqui onde estou, ao lado da máquina de música próxima ao corredor que afunda na luz mortiça dos banheiros imundos, posso vê-los e ouvi-los perfeitamente através do bafo de cerveja, desodorante sanitário e mijo que chegam juntos às nossas narinas.

   Na máquina de música, para embalar esse encontro que eles ainda não perceberam que estão tendo [boa], para ajudá-los a navegar melhor nisso por enquanto não tem nome e poderiam sequer, se eu não ajudasse - escolherei lentos blues, solos sofridos de sax, pianos lentíssimos, à beira do êxtase, clarinetas ofegantes e vozes graves, negras vozes roucas ásperas de cigarros, mas aveludadas por goles de bourbon ou conhaque, para que tudo escorra dourado como a bebida de outras águas, não estas, tão turvas, de onde emergiram dois pobres peixes cegos da noite, para sempre ignorantes da minha presença aqui, junto à máquina de música, ao lado do corredor que leva aos banheiros imundos, a criar claridades impossíveis e a ninar com canções malditas esse encontro inesperado, tanto por eles, que navegam cegos, quanto por mim, pescador sem anzol debruçado sobre a água do espaço que me separa deles.

(...)
Continua...

Arcano do Tarô: O Julgamento.