quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

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Mais uma do Caio.
Boa Caio.

"(...) Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa. A não ser o belo, que é de ver, não de mastigar, e por isso mesmo também uma forma de desconforto. No turvo seco de uma casa esvaziada da presença de um dragão, mesmo voltando a comer e a dormir normalmente, como fazem as pessoas banais, você não sabe mais se não seria preferível aquele pantanal de antes, cheio de possibilidades – que não aconteciam, mas que importa? – a esta secura de agora. Quando tudo, sem ele, é nada."

in Os Dragões Não Conhecem o Paraíso,
Caio Fernando Abreu.

2 comentários:

Anônimo disse...

realmente, o dragão nao conhece o paraiso, viu! nem o sossego...

quase choro ao ler aos duas ultimas linhas.

ai ai...

Murilo

Camie disse...

Eu tenho certeza que, não importa quantas vezes eu releia o Caio, sempre vou acabar com os olhos cheios de lágrimas e o coração às portas da garganta.
Tãããããão lindo!
Obrigada pelo post. Saudades do sr!