quinta-feira, 1 de dezembro de 2005

Fome - parte I

Por essas, do alto do 29o., Caio me acompanha.
Segue, em partes do tamanho correspondente a quanto meus dedos conseguirem digitar, algo que poderia ser uma versão masculina da Macabéa. Ah, essa miséria humana... Talvez seja melhor assim: um Caio homeopático - Dragões não conhecem o paraíso.

Bom divertimento,
ou não.

* * *


   Um aquário de águas sujas, a noite e a névoa da noite onde eles navegavam sem me ver, peixes cegos ignorantes de seu caminho inevitável em direção um ao outro e a mim. Pleno inverno gelado, agosto e madrugada na esquina da loja funerária, eles navegavam entre punks, neons, prostitutas e gemidos de sintetizador eletrônico - sons, algas, águas - soltos no espaço que separa o bar maldito das trevas do parque, na cidade que não é nem será mais a de um deles. Porque cidades, como as pessoas ocasionais e os apartamentos alugados, foram feitas para serem abandonadas [É isso aí. Caio!] - reflete, enquanto navega.

   Ele: esse homem de quase quarenta anos, começando a beber um pouco de mais, não muito, só o suficiente para acender a emoção cansada, e a perder cabelo do alto da cabeça, não muito, mas o suficiente para algumas piadas patéticas. Sobre esse espaço vazio de cabelos no alto da cabeça caem gotas de sereno, cristais e névoa, e por baixo dele acontecem certos pensamentoa altos na noite, algum álcool e muita solidão. Ele acende um cigarro molhado, ele ergue a gola do impermeável cinza até as orelhas. Nesse gesto, a mão que segura o cigarro roça áspera na barba de três dias. Ele suspira, então, gelado.

   Há muitas outras coisas que se poderia dizer sobre esse homem nesta noite turva, nesse bar onde agora entra, na cidade que um dia foi dele. mas parado aqui, no fundo do mesmo bar em que ele entra, sem passado, porque não têm passado os homens de quase quarenta anos que caminham sozinhos pelas madrugadas - todas essas coisas um tanto vagas, um tanto tolas, são tudo o que posso dizer sobre ele. Assim magro, molhado, meio curvo de magreza, frio e estranhamento. O estranhamento típico dos homens de quase quarenta anos vagando pelas noites de cidades que, por terem deixado de ser a deles, tornaram-se ainda mais desconhecidas que qualquer outra.

   O bar é igual a um longo corredor polonês. As paredes demarcadas - à direita de quem entra, mas à esquerda de onde contemplo - pelo balcão comprido e, do lado oposto, pela linha, estendida horizontal da porta de entrada até a juke-box do fundo onde estou e espio, ele se movimenta - magro, curvo, molhado - entre pessoas enevoadas. Vestido de escuro, massa negra, monstro vomitado pelas ondas noturnas na areia suja do bar. Entre essas pessoas, embora vestido de cinza, ele parece todo branco.

   O homem pede uma cerveja no balcão, depois se perde outra vez no meio das gentes. Alongando o pescoço, mal consigo acompanhar o topo da sua cabeça de homem alto, meio calvo, até que ele descubra a cadeira vazia na mesa onde está sentado aquele rapaz. E daqui onde estou, ao lado da máquina de música próxima ao corredor que afunda na luz mortiça dos banheiros imundos, posso vê-los e ouvi-los perfeitamente através do bafo de cerveja, desodorante sanitário e mijo que chegam juntos às nossas narinas.

   Na máquina de música, para embalar esse encontro que eles ainda não perceberam que estão tendo [boa], para ajudá-los a navegar melhor nisso por enquanto não tem nome e poderiam sequer, se eu não ajudasse - escolherei lentos blues, solos sofridos de sax, pianos lentíssimos, à beira do êxtase, clarinetas ofegantes e vozes graves, negras vozes roucas ásperas de cigarros, mas aveludadas por goles de bourbon ou conhaque, para que tudo escorra dourado como a bebida de outras águas, não estas, tão turvas, de onde emergiram dois pobres peixes cegos da noite, para sempre ignorantes da minha presença aqui, junto à máquina de música, ao lado do corredor que leva aos banheiros imundos, a criar claridades impossíveis e a ninar com canções malditas esse encontro inesperado, tanto por eles, que navegam cegos, quanto por mim, pescador sem anzol debruçado sobre a água do espaço que me separa deles.

(...)
Continua...

Arcano do Tarô: O Julgamento.

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